sexta-feira, 12 de março de 2010

A CULPA ERA DAS ESTUPRADAS

Havia Demóstenes, o Certo, estimados leitores. Que viveu entre 322 e 384 A.C. e era o cara, quando o assunto era dizer belamente o que deveria ser dito. Demóstenes, o Certo, pensava muito bem, mas tinha a fala dificultada por ser gago. E teria colocado pedras na boca para dominar as palavras; gritando junto ao mar, para que a sua voz se impusesse ao barulho das ondas. E, assim, teria se tornado o maior orador da Grécia, em uma época na qual a oratória era uma das Artes, e ser um bom orador era ainda mais importante do que ser, digamos, um Big Brother, imaginem!

Bom, em nosso país e tempo, somos premiados com Demóstenes, o Errado, eleito senador pelo DEM do bravo Goiás, que disse, estimados leitores, que a escravidão não foi culpa nossa, que importamos milhões de escravos, mas, sim, da África, que os exportou.

Pior, estimados leitores. Demóstenes, o Errado, avançou ainda mais na oratória sem noção e disse que a miscigenação no Brasil escravagista aconteceu assim, numa boa. Os filhos brancos dos donos dos engenhos e as negras que também eram propriedade do dono do mesmo engenho transavam por amor e diversão, assim, simples e nada mais. As negras, mesmo sabendo que poderiam ser açoitadas ou mortas se resolvessem sentir dor de cabeça bem nessa hora, esqueciam da sua condição de escravas justamente para poderem ficar com os meninos da casa grande sem que nenhum lado sentisse qualquer culpa. Que beleza!

O outro Demóstenes, o Certo, não falava bem por ter superado a gagueira. Ele falava bem porque pensava melhor ainda. Demóstenes, o Errado, me parece ser a confirmação dessa regra a partir do outro lado. Pra mim, que respeito eleições, ele pode ser senador, sim, mas na categoria Incitatus.

A escravidão é a maior tragédia desse país, estimados leitores. Uma imigração africana para o Brasil seria sempre o que foi. Uma enorme, galática contribuição para tudo o que esse país se tornou e vai tornar. Mas ela deveria ter ocorrido como as demais migrações, realizadas por pessoas vindas até aqui em busca de algo que precisaria ser construído para existir, e que, para nossa sorte, vieram construir. Nunca, jamais, pela via desprezível da escravidão, que foi sempre o nosso maior tormento. Leiam Pai contra Mãe, de Machado de Assis, que demonstra de maneira cristalina que, em uma sociedade de escravos somos todos escravos ou feitores, e isso fomos, por tempo demasiado. Leiam, estimados leitores.

Culpar a África por ter sido explorada está em perfeito alinhamento com o restante do, digamos, pensamento do nosso Demóstenes, o Errado - o de culpar as negras por participarem do estupro de maneira mais animada do que seria digno. Essencial é compreender que, se havia negros livres, é porque havia negros escravizados, ou todos seriam o que é natural ser - livres. Se havia negras que consentiam ou participavam do sexo com brancos, isso acontecia em um mundo profundamente anormal, e no qual elas tinham que viver! O senador supõe escolhas onde elas eram inexistentes. Que feio, Demóstenes!

O mais estranho era que Demóstenes, o Errado, defendia uma posição que é, em princípio, certa e contrária às cotas raciais nas universidades. Oficializar diferenças de tratamento com base na raça é racismo. E racismo, para mim - que poderia me beneficiar de uma política de cotas alegando ser um coquetel de todas as raças existentes e algumas ainda não catalogadas -parece ser crime inafiançável nessa mesma Constituição.

Eu fico aqui na minha luxuosa laje de Pinheiros, coçando o meu dedão filosófico e pensando na festa que Demóstenes, o Certo, faria com um tema desses nas mãos. Não somos a Grécia antiga, infelizmente, e, em momentos como esse, penso na falta que nos faz termos alguém com pedrinhas na boca e belezas na mente, se esforçando por tornar, tão simplesmente, as coisas mais claras e belas, e não o contrário.

Havia Demóstenes, o Certo, estimados leitores. Que viveu entre 322 e 384 A.C. e era o cara, quando o assunto era dizer belamente o que deveria ser dito. Demóstenes, o Certo, pensava muito bem, mas tinha a fala dificultada por ser gago. E teria colocado pedras na boca para dominar as palavras; gritando junto ao mar, para que a sua voz se impusesse ao barulho das ondas. E, assim, teria se tornado o maior orador da Grécia, em uma época na qual a oratória era uma das Artes, e ser um bom orador era ainda mais importante do que ser, digamos, um Big Brother, imaginem!

Bom, em nosso país e tempo, somos premiados com Demóstenes, o Errado, eleito senador pelo DEM do bravo Goiás, que disse, estimados leitores, que a escravidão não foi culpa nossa, que importamos milhões de escravos, mas, sim, da África, que os exportou.

Pior, estimados leitores. Demóstenes, o Errado, avançou ainda mais na oratória sem noção e disse que a miscigenação no Brasil escravagista aconteceu assim, numa boa. Os filhos brancos dos donos dos engenhos e as negras que também eram propriedade do dono do mesmo engenho transavam por amor e diversão, assim, simples e nada mais. As negras, mesmo sabendo que poderiam ser açoitadas ou mortas se resolvessem sentir dor de cabeça bem nessa hora, esqueciam da sua condição de escravas justamente para poderem ficar com os meninos da casa grande sem que nenhum lado sentisse qualquer culpa. Que beleza!

O outro Demóstenes, o Certo, não falava bem por ter superado a gagueira. Ele falava bem porque pensava melhor ainda. Demóstenes, o Errado, me parece ser a confirmação dessa regra a partir do outro lado. Pra mim, que respeito eleições, ele pode ser senador, sim, mas na categoria Incitatus.

A escravidão é a maior tragédia desse país, estimados leitores. Uma imigração africana para o Brasil seria sempre o que foi. Uma enorme, galática contribuição para tudo o que esse país se tornou e vai tornar. Mas ela deveria ter ocorrido como as demais migrações, realizadas por pessoas vindas até aqui em busca de algo que precisaria ser construído para existir, e que, para nossa sorte, vieram construir. Nunca, jamais, pela via desprezível da escravidão, que foi sempre o nosso maior tormento. Leiam Pai contra Mãe, de Machado de Assis, que demonstra de maneira cristalina que, em uma sociedade de escravos somos todos escravos ou feitores, e isso fomos, por tempo demasiado. Leiam, estimados leitores.

Culpar a África por ter sido explorada está em perfeito alinhamento com o restante do, digamos, pensamento do nosso Demóstenes, o Errado - o de culpar as negras por participarem do estupro de maneira mais animada do que seria digno. Essencial é compreender que, se havia negros livres, é porque havia negros escravizados, ou todos seriam o que é natural ser - livres. Se havia negras que consentiam ou participavam do sexo com brancos, isso acontecia em um mundo profundamente anormal, e no qual elas tinham que viver! O senador supõe escolhas onde elas eram inexistentes. Que feio, Demóstenes!

O mais estranho era que Demóstenes, o Errado, defendia uma posição que é, em princípio, certa e contrária às cotas raciais nas universidades. Oficializar diferenças de tratamento com base na raça é racismo. E racismo, para mim - que poderia me beneficiar de uma política de cotas alegando ser um coquetel de todas as raças existentes e algumas ainda não catalogadas -parece ser crime inafiançável nessa mesma Constituição.

Eu fico aqui na minha luxuosa laje de Pinheiros, coçando o meu dedão filosófico e pensando na festa que Demóstenes, o Certo, faria com um tema desses nas mãos. Não somos a Grécia antiga, infelizmente, e, em momentos como esse, penso na falta que nos faz termos alguém com pedrinhas na boca e belezas na mente, se esforçando por tornar, tão simplesmente, as coisas mais claras e belas, e não o contrário.

Havia Demóstenes, o Certo, estimados leitores. Que viveu entre 322 e 384 A.C. e era o cara, quando o assunto era dizer belamente o que deveria ser dito. Demóstenes, o Certo, pensava muito bem, mas tinha a fala dificultada por ser gago. E teria colocado pedras na boca para dominar as palavras; gritando junto ao mar, para que a sua voz se impusesse ao barulho das ondas. E, assim, teria se tornado o maior orador da Grécia, em uma época na qual a oratória era uma das Artes, e ser um bom orador era ainda mais importante do que ser, digamos, um Big Brother, imaginem!

Bom, em nosso país e tempo, somos premiados com Demóstenes, o Errado, eleito senador pelo DEM do bravo Goiás, que disse, estimados leitores, que a escravidão não foi culpa nossa, que importamos milhões de escravos, mas, sim, da África, que os exportou.

Pior, estimados leitores. Demóstenes, o Errado, avançou ainda mais na oratória sem noção e disse que a miscigenação no Brasil escravagista aconteceu assim, numa boa. Os filhos brancos dos donos dos engenhos e as negras que também eram propriedade do dono do mesmo engenho transavam por amor e diversão, assim, simples e nada mais. As negras, mesmo sabendo que poderiam ser açoitadas ou mortas se resolvessem sentir dor de cabeça bem nessa hora, esqueciam da sua condição de escravas justamente para poderem ficar com os meninos da casa grande sem que nenhum lado sentisse qualquer culpa. Que beleza!

O outro Demóstenes, o Certo, não falava bem por ter superado a gagueira. Ele falava bem porque pensava melhor ainda. Demóstenes, o Errado, me parece ser a confirmação dessa regra a partir do outro lado. Pra mim, que respeito eleições, ele pode ser senador, sim, mas na categoria Incitatus.

A escravidão é a maior tragédia desse país, estimados leitores. Uma imigração africana para o Brasil seria sempre o que foi. Uma enorme, galática contribuição para tudo o que esse país se tornou e vai tornar. Mas ela deveria ter ocorrido como as demais migrações, realizadas por pessoas vindas até aqui em busca de algo que precisaria ser construído para existir, e que, para nossa sorte, vieram construir. Nunca, jamais, pela via desprezível da escravidão, que foi sempre o nosso maior tormento. Leiam Pai contra Mãe, de Machado de Assis, que demonstra de maneira cristalina que, em uma sociedade de escravos somos todos escravos ou feitores, e isso fomos, por tempo demasiado. Leiam, estimados leitores.

Culpar a África por ter sido explorada está em perfeito alinhamento com o restante do, digamos, pensamento do nosso Demóstenes, o Errado - o de culpar as negras por participarem do estupro de maneira mais animada do que seria digno. Essencial é compreender que, se havia negros livres, é porque havia negros escravizados, ou todos seriam o que é natural ser - livres. Se havia negras que consentiam ou participavam do sexo com brancos, isso acontecia em um mundo profundamente anormal, e no qual elas tinham que viver! O senador supõe escolhas onde elas eram inexistentes. Que feio, Demóstenes!

O mais estranho era que Demóstenes, o Errado, defendia uma posição que é, em princípio, certa e contrária às cotas raciais nas universidades. Oficializar diferenças de tratamento com base na raça é racismo. E racismo, para mim - que poderia me beneficiar de uma política de cotas alegando ser um coquetel de todas as raças existentes e algumas ainda não catalogadas -parece ser crime inafiançável nessa mesma Constituição.

Eu fico aqui na minha luxuosa laje de Pinheiros, coçando o meu dedão filosófico e pensando na festa que Demóstenes, o Certo, faria com um tema desses nas mãos. Não somos a Grécia antiga, infelizmente, e, em momentos como esse, penso na falta que nos faz termos alguém com pedrinhas na boca e belezas na mente, se esforçando por tornar, tão simplesmente, as coisas mais claras e belas, e não o contrário.

Marcelo Carneiro da Cunha
de São Paulo (SP)

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